Projeto inédito ouviu 24 catadores autônomos e cooperados, reconheceu vulnerabilidades extremas e entregou ao poder público propostas concretas para inclusão socioeconômica e valorização de quem coleta e encaminha os materiais recicláveis o que a cidade descarta.
Enquanto a crise climática se intensifica e as cidades buscam soluções para reduzir emissões de gases do efeito estufa (GEEs), um grupo de trabalhadores essenciais segue invisível: os catadores de materiais recicláveis. Eles percorrem diariamente as ruas, enfrentam calor extremo, chuva, discriminação e riscos à saúde, mas garantem que toneladas de recicláveis não sejam enterrados em aterros, evitando a emissão de mais de 2 toneladas de gases de efeito estufa por tonelada de material recuperado.
O projeto “Valorização dos Catadores na Agenda Climática”, proposto pela Cooperativa Recicla Vida, desenvolvido em parceria e com metodologia do Instituto Sabiá, e apoio do Fundo Casa Socioambiental, escutou 24 agentes de coleta seletiva, autônomos e cooperados, e revelou um retrato cruel da realidade que enfrentam.
Os cooperados, que atuam na triagem de materiais recicláveis nos galpões das cooperativas locais, têm renda média mensal em torno de R$1.000,00. Já os catadores autônomos, que vivem em informalidade plena, têm como renda valores entre R$ 100,00 e R$ 500,00 por mês. Além disso, 100% destes apresentam patologias crônicas, 80% já pararam de trabalhar por calor extremo e 75% relataram sofrer discriminação diariamente.
“Nós somos agentes ambientais, mas somos tratados como invisíveis. Pedi água e me deram em um copo retirado do lixo. Não queremos caridade, queremos direitos, contratos e respeito”, relatou um dos participantes durante o diagnóstico participativo realizado.
Entre as conquistas do projeto, estão a elaboração de uma Carta Aberta protocolada ao poder público, com cinco propostas concretas: contratos formais com cooperativas; criação de programa emergencial de apoio a catadores autônomos; implementação do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA); priorização de cooperativas na gestão de resíduos de eventos; e atualização do Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMGIRS) com metas claras de inclusão e formalização dos serviços prestados por estes profissionais.
“O projeto não só revelou a realidade dos catadores autônomos e dos cooperados, como também os colocou como protagonistas na busca de caminhos para a construção de soluções aos problemas reais vividos por eles diariamente no território. Pela primeira vez, eles ocupam um lugar de análise crítico-construtiva da realidade e de fala para incidência em políticas públicas, e não apenas de escuta e aceitação das condições precárias em que vivem”, destaca Larissa Néri, coordenadora do projeto.
Com estímulo do Instituto Sabiá e apoio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, a cooperativa Recicla Pinda deu um passo além: inscreveu-se no edital de chamamento para novos membros do Conselho de Defesa do Meio Ambiente (CONDEMA) de Pindamonhangaba e conquistou a titularidade na cadeira de Movimentos Comunitários. “Não podemos mais ficar de fora das decisões que afetam nossas vidas. Nada sobre nós, sem nós”, afirma Marcela Bueno, líder da cooperativa.
O relatório final do diagnóstico participativo e a Carta Aberta foram protocolados via 1Doc em julho de 2026 e agora aguardam resposta do poder público.
O projeto demonstra que, para enfrentar a crise climática, é preciso, antes de tudo, reconhecer e valorizar quem já está na linha de frente da reciclagem e da economia circular.



